Doenças virais: Hepatite B

Doenças virais: Hepatite B

Tempo de leitura: 9 minutos

DOENÇAS VIRAIS: HEPATITE B

Causada pelo vírus B (HBV), a hepatite do tipo B é uma doença infecciosa também chamada de soro-homóloga. Como o VHB está presente no sangue, no esperma e no leite materno, a hepatite B é considerada uma doença sexualmente transmissível.

O vírus da hepatite B é 50 a 100 vezes mais infeccioso do que o HIV.

A hepatite B, descoberto em 1965, é a mais perigosa das hepatites e uma das doenças mais frequentes do mundo, estimando-se que existam 350 milhões de portadores crônicos do vírus. Estes portadores podem desenvolver doenças hepáticas graves, como a cirrose e câncer no fígado, patologias responsáveis pela morte de um milhão de pessoas por ano em todo o planeta; contudo a prevenção contra este vírus está ao nosso alcance através da vacina da hepatite B que tem uma eficácia de 95 por cento.

Mais de 50% da população mundial já foi contaminada pelo vírus da hepatite B. Estima-se algo em torno de 2 bilhões de pessoas que já entraram em contato com o vírus, 350 milhões de portadores crônicos e 50 milhões de novos casos a cada ano. Em áreas com maior incidência, 8 a 25% das pessoas carregam o vírus e de 60 a 85% já foram expostas. No Brasil, 15% da população já foi contaminada e 1% é portadora crônica.

TRANSMISSÃO

O vírus que causa a hepatite B (VHB) é um vírus DNA, transmitido por sangue e outros líquidos/ secreções corporais contaminados. A transmissão pode também ocorrer em situações rotineiras no dia-a-dia, como, por exemplo, no compartilhamento de alicates de unha. Foram identificadas quatro formas de transmissão:


• de uma mãe portadora do vírus da hepatite B para seu bebê no nascimento;
• por contato sexual com uma pessoa infectada;
• por injeções ou feridas provocadas por material contaminado;
• por tratamento com derivados de sangue contaminados.

Não se adquire hepatite B através de talheres, pratos, beijo, abraço ou qualquer outro tipo de atividade social aonde não ocorra contato com sangue. Após a infecção, o vírus concentra-se quase que totalmente nas células do fígado, aonde seu DNA fará o hepatócito construir novos vírus.

O vírus da hepatite B é resistente, chegando a sobreviver 7 dias no ambiente externo em condições normais e com risco de, se entrar em contato com sangue através de picada de agulha, corte ou machucados (incluindo procedimentos de manicure e tatuagens com instrumentos contaminados), levar a infecção em 5 a 40% das pessoas não vacinadas (o risco é maior do que o observado para o vírus da hepatite C – 3 a 10% ou o da AIDS – 0,2-0,5%).

SINTOMAS

O vírus provoca hepatite aguda num terço dos atingidos, e um em cada mil infectados pode ser vítima de hepatite fulminante. Em menos de dez por cento dos casos em que a infecção ocorre na idade adulta, à doença torna-se crônica, verificando-se esta situação mais frequentemente nos homens. 

Embora a maioria dos adultos desenvolva sintomas de infecção aguda pelo vírus da hepatite B, muitas crianças não o fazem. Adultos e crianças com idade superior a 5 anos são mais propensos a ter sintomas. Setenta por cento dos adultos desenvolvem sintomas da infecção. Os sintomas da hepatite B aguda, se eles aparecem, podem incluir:


• Febre
• Fadiga
• Perda de apetite
• Náuseas
• Vômitos
• Dor abdominal
• Urina escura
• Dor nas articulações
• Icterícia (cor amarela na pele ou dos olhos)

Em cerca de 3-8% dos adultos, a defesa imunológica não consegue destruir as células infectadas e a inflamação (hepatite) persiste. Quando a infecção persiste por mais de 6 meses, definindo hepatite crônica, a chance de cura espontânea é muito baixa. Os sintomas mais comuns são falta de apetite, perda de peso e fadiga, apesar da maioria das pessoas ser assintomática. Outras manifestações extra-hepáticas, mais raras, incluem artralgias, artrite, poliarterite nodosa, glomerulonefrite, derrame pleural, púrpura de Henoch-Schölein, edema angioneurótico, pericardite, anemia aplástica, pancreatite, miocardite, pneumonia atípica, mielite transversa e neuropatia periférica.

DIAGNÓSTICO

Os marcadores que permitem diagnosticar a hepatite B surgem no sangue em tempos diferentes. Normalmente, o primeiro a detectar-se é o antígeno HBs, que persiste um a três meses e que demonstra a presença do vírus, no organismo. Um pouco mais tarde (mas às vezes ao mesmo tempo) surge o antígeno HBe, sinónimo de que o agente infeccioso está a multiplicar-se. É nesta fase que é mais elevado o perigo de contágio.

Só depois surgem os anticorpos e o primeiro a aparecer, em geral, é o anti-HBc; em seguida, se as defesas imunitárias do organismo estiverem a funcionar corretamente, surgem o anti-HBe, como resposta ao antígeno HBe. Isto significa que houve uma soroconversão, a multiplicação do vírus diminuiu e, se nada alterar o curso normal, desaparece o antígeno HBs e surge o anticorpo anti-HBs, que permanece no organismo para o resto da vida e confere imunidade.

A presença do antígeno HBe, além das oito semanas, indica que a hepatite está a passar a uma fase crônica. A permanência do antígeno HBs, por mais de seis meses confirma a passagem ao estágio crônico.

A realização de uma biopsia hepática pode ser necessária nalguns doentes que apresentem indícios da presença do vírus no organismo por mais de seis meses para avaliar a gravidade das lesões do fígado. Como a infecção crónica pelo VHB é uma doença sexualmente transmissível, devem-se fazer análises para detectar a eventual presença do HIV nas pessoas infectadas.

TRATAMENTO

A hepatite B aguda é tratada com repouso e aconselha-se o doente a não consumir bebidas alcoólicas e alimentos ou medicamentos que possam ser tóxicos para o fígado.

Se a hepatite B evolui para uma doença crônica pode fazer-se o tratamento com interferon ou com medicamentos designados por análogos dos nucleósidos, que têm como objetivo interromper a multiplicação do vírus e estimular a destruição das células infectadas. O interferon peguilado, ou peginterferon, veio substituir o interferon clássico. O tratamento com peguinterferon dura, em geral, 12 meses e tem uma eficácia de 36 a 42 por cento, sendo mais alta nos doentes com transminases mais elevadas e com carga virial mais baixa.

Em alternativa, o tratamento pode ser feito com os análogos dos nucleósidos, como a lamivudina e o adefovir, que têm um efeito antivial potente mas que necessitam de uma administração mais prolongada do que o peginterferon para se obterem taxas de resposta semelhantes.

O tenofovir (TDF) é o fármaco mais recentemente aprovado para o tratamento da hepatite viral crônica B, tanto na comunidade europeia como nos Estados Unidos. Trata-se de um análogo nucleotídeo que bloqueia a ação da enzima transcriptase reversa, a responsável pela replicação do VHB. Pertence à mesma classe do adefovir (ADF); porém, tem maior potência de inibição da replicação viral e maior rapidez de ação, além de melhor perfil de resistência, por possuir maior barreira genética.

Como com todos os medicamentos, os tratamentos para a hepatite B têm efeitos secundários, pelo que os doentes devem aconselhar-se com o seu médico.

Se a hepatite crónica conduzir à cirrose e esta evoluir para a insuficiência hepática, aconselha-se o transplante hepático. Contudo, no caso da hepatite B os riscos de recidiva são muito elevados, pois, não existem formas eficazes de evitar a infecção do novo fígado. Normalmente administra-se imunoglobulina anti-HBs logo após ter-se retirado o fígado do corpo e antes de inserir o novo órgão, para neutralizar o vírus que se encontra no sangue. O doente deve continuar a receber imunoglobulina anti-HBs durante vários anos, para evitar o reaparecimento do antígeno HBs.

O doente que vai receber o novo fígado não deve ter mais de 65 anos nem sofrer de uma patologia grave que afete outro órgão como os rins, os pulmões e o coração.

PREVENÇÃO

Evitar a doença é muito fácil. Basta tomar as três doses da vacina, usar camisinha em todas as relações sexuais e não compartilhar objetos de uso pessoal, como lâminas de barbear e depilar, escovas de dente, material de manicure e pedicure, equipamentos para uso de drogas, confecção de tatuagem e colocação de piercings.

Além disso, toda mulher grávida precisa fazer o pré-natal e os exames para detectar a hepatites, a aids e a sífilis. Esse cuidado é fundamental para evitar a transmissão de mãe para filho. Em caso positivo, é necessário seguir todas as recomendações médicas, inclusive sobre o tipo de parto e amamentação.

REFERÊNCIAS

– Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais [HEPATITE B]. Disponível em: http://www.aids.gov.br/pagina/hepatite-b

– Hepcentro – Hepatologia Médica [Haptite b]. Disponível em: http://www.hepcentro.com.br/hepatite_b.htm

– Bio-Manguinhos [Hepatite B: sintomas, trasmissão e prevenção]. Disponível em: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/hepatite-b-sintomas-transmissao-e-prevencao

– Roche [Hepatite B]. Disponível em: http://www.roche.pt/hepatites/hepatiteb/index.cfm

– Ministério da Saúde [Protocolo Clínico e diretrizes terapêuticas para tratamento da Hepatite Viral Crônica B e Coinfecções]. Disponível em: http://www.sbhepatologia.org.br/pdf/politicas_publicas/hepatiteB.pdf

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