O farmacêutico na Análises Clínicas

Tempo de leitura: 9 minutos

1- Conte- nos um pouco sobre sua trajetória profissional

Eu fiz faculdade de farmácia, concluindo no ano de 2010 e depois ingressei numa especialização em citopatologia. Passei num concurso público tanto para técnico de laboratório, quanto para o cargo de farmacêutico. Antes da faculdade, atuava como técnico de laboratório em análises clínicas e anatomia patológica. Atualmente sigo a carreira de Farmacêutico-bioquímico na esfera pública, com experiência em microbiologia, citopatologia, análises clínicas, hemoterapia e histocompatibilidade.

2- A seu ver, qual o papel da automação nas rotinas diárias do laboratório?

A automação é uma realidade crescente, e provavelmente se ampliará para praticamente todas as atividades laborais, não só nas áreas de biodiagnóstico. Lembro-me bem que mais de 10 anos atrás costumava-se brincar que não havia robôs para coleta sanguínea. Atualmente não foi só desenvolvido, como há robôs que conseguem fazer pequenas cirurgias em uvas, por exemplo. Os maiores entraves à ampla robotização é que os custo de implementação são atualmente impraticáveis, principalmente à laboratórios de rotinas pequenas.

Contudo, a automação inegavelmente houve um maior capacidade de produção e realização de exames, com ensaios multiparamétricos, otimizando tanto tempo dos operadores, velocidade de conclusão do ensaio, e análises dos laudos. Com a automação, houve um importante acréscimo na sensibilidade e especifidade dos testes, melhorando indiscutivelmente a reprodutibilidade, qualidade e a confiabilidade dos laudos obtidos, que não seriam possíveis de outra forma.

Em termos de viabilidade econômica, para implantar um laboratório totalmente automatizado é possível apenas nas realidades de rotinas robustas, sendo que laboratórios pequenos ainda realizam muitas técnicas manuais. A vantagem para a ótica do empresário é que a automação significa uma redução de capital humano, mas ainda hoje não é indispensável para se firmar os laudos. Os farmacêuticos bioquímicos, ou analistas clínicos são responsáveis pela liberação dos mesmos e nenhum laudo é liberado direto da automação, sem a conferência humana. Isso faz que a rotina de controles de qualidade, verificação de parâmetros, validação das técnicas, revisão científica das mesmas seja uma tarefa mais frequente. É imperioso fazer validação de todas as técnicas para garantir que os dados liberados pelas máquinas são realmente equivalentes à situação in vivo, verificando os valores preditivos positivos e negativos, já que algumas desatualizações e desconfigurações dos equipamentos possam trazer identificação errônea dos patógenos, por exemplo. As etapas pré-analíticas e pós-analíticas ainda são feitas pelos profissionais humanos.

No cenário cientifíco, há tentativas de implantação de laboratórios nos consultórios médicos, de forma que seja mais econômica, rápida e portátil, para assim os exames mais solicitados poderem ser resolvidos de imediato na consulta clínica. Porém, há desenvolvimento de novas metodologias diagnósticas, e surgimento de novos agentes, novos surtos (como vivido recentemente com o os vírus Zika e Chikungunya), bem como mutação dos mesmo, que inviabilizem a amplitude de cobertura dos laboratórios em consultórios (que ainda não é realidade), de forma que a demanda de serviços especializados em diagnóstico laboratorial mantenham a sua relevância social.

3- No seu entendimento, quais características o profissional deve ter/ desenvolver para atuar na área clínica?

A qualificação e atualização são essenciais. Áreas como a microbiologia clínica, citopatologia, genética clínica, dificilmente empregam pessoas que não tem especialização na área. Ainda que não seja uma obrigação, passa a ser desejável, principalmente para quem não tem experiência. Nos grandes centros urbanos, não é difícil encontrar pessoas com mestrado e doutorado nas áreas de biologia molecular e genética humana, então, isso faz que o nível de exigência do mercado suba muito. Então, a pós graduação lato e stricto sensu são praticamente primordiais para quem quer ingressar em laboratório clínico.

Outra realidade é que, como novas técnicas surgem, a disposição em fazer “estágios” e treinamento em laboratórios de referência ajudam na atualização do profissional, de forma que um perfil mais científico e dinâmico sejam importantes para se manter ativo no mercado, que sofre muitas mudanças, fruto de pesquisas e desenvolvimento de novas técnicas.

Atualmente, provas de título de especialistas das sociedades científicas também são uma boa estratégia para melhorar o currículo profissional.

4- Quais sites ou bibliografias você considera promordiais no segmento laboratorial e indicaria aos leitores do Diário Farma?

Eu recomendo os livros:

  • Diagnóstico clínicos e tratamentos por métodos laboratoriais”, de John B Henry, que é o livro de cabeceira. É bem completo e permite uma visão mais ampla. Para níveis mais específicos devem somar outras literaturas;

  • Técnicas de laboratório” do Roberto de Almeida Moura, uso desde o início da minha carreira e ajuda muito, principalmente em técnicas mais clássicas;

  • Hemograma – manual de interpretação” do Renato Failace;

  • Comprehensive Cytopathology”, de Marluce Bibbo, pra quem atua em citologia clínica; e

  • Diagnóstico laboratorial das principais doenças infecciosas e autoimunes” de Walter Ferreira, mesmo quem não atue diretamente com biodiagnóstico, pelo fato de ser bem esclarecedor em termos de literatura de saúde.

Os sites das sociedades científicas são bem úteis, como a Sociedade Brasileira de Análises Clíncias (SBAC), Sociedade Brasileira de Citologia Clínica (SBCC), International Agency for Research on Cancer (IARC), Sociedade Brasileira de Microbiologia (SBM) são os que eu mais acesso com frequência.

5- Quais dicas profissionais vc recomenda em relação a pós graduação, mestrado e doutorado para os profissionais que desejam se aprofundar na área de análises clínicas?

Depende muito da área de interesse. Para atuar em laboratórios de rotinas como bioquímica clínica, laboratórios de emergências a experiência acredito ser mais importante que títulos. Áreas como microbiologia e citologia clínica dificilmente empregam sem uma especialização lato sensu, e, na genética, o número de profissionais com doutorado e mestrado acabam sendo um básico para atuar no mercado, embora não seja uma exigência bem estabelecida. Contudo, ouço queixas sobre muitos titulados não terem conhecimento em áreas básicas e acabam indo mal em entrevistas de emprego, por isso, é importante não só fazer pós-graduação, como é importante ter experiência profissional, que são obtidas mesmo com estágios. Mas se eu puder dar uma dica, pelo menos uma especialização em análises clínicas o farmacêutico deve fazer se quiser entrar para esse ramo.

6- Quais legislações você destaca como essenciais no dia a dia dos laboratórios ?

RDC da Anvisa 302/2005, a 30/2015 e 51/2013.

7- Quais maiores desafios vc enumera na sua atuação profissional?

Os maiores desafios são a questão da atualização, que por termos uma carga horária extensa, faz com que muitas vezes prejudiquemos horários de folga para buscar as novidades científicas. Muitas vezes os congressos e encontros (que são muito úteis para atualização) são em lugares longínquos e com preços exorbitantes, quando somados à hospedagem e transporte. Muitas empresas não conferem folga nem incentivo à participação em congressos, o que faz muitas vezes o profissional utilizar de férias ou descanso remunerado para o comparecimento nesses eventos.

A área de diagnóstico laboratorial é multiprofissional, e algumas vezes isso é prejudicial em termos de atualização de piso salarial, uma vez que o mercado sempre busca o profissional “mais barato” e faz que os salários ofertados sejam muito aquém do que se deveria, e não do nível de responsabilidade exigido; especialmente nas empresas que não possuem Plano de Cargos e Salários próprio.

Para quem for empresário do ramo, os valores ressarcidos pelo SUS quanto pelas seguradoras de saúde também são aquém, com tabelas desatualizadas no caso do SUS, o que reduz muito a margem de arrecadação e lucro da empresa, que precisa gastar muito, para gerar pouco.

8- Quais novas subáreas vem surgindo na área laboratórial que vc considera como promissoras?

Não são áreas tão novas assim, mas exemplifico a área de terapia celular e medicina regenerativa, que tem um potencial de expansão, com muitas publicações mundiais diariamente e há pouca mão-de-obra disponível.

A perfusão sanguínea e circulação extra-corpórea também é uma área promissora, já que as cirurgías cardíacas é uma realidade atualmente distante de se findar

A área da microbiologia médica nunca é demais, já que surtos ainda assolam a sociedade, como possibilidade de surgimentos de novos agentes, sem que o desenvolvimento de antimicrobianos e vacinas acompanhem a demanda da sociedade.

A biologia molecular e proteoma são uma área que tendem à franca expansão, desde a redução dos custos e o desenvolvimento de novas técnicas diagnósticas, que dão maior facilidade, acurácia e confiabilidade que os métodos tradicionais, em muitos casos, possibilitando ainda incorporações de novas técnicas na rotina, o que mudou drasticamente a “cara” dos laboratórios de análises clínicas, na nossa geração.

                                      Pedro Henrique de Jesus Diogo

                                                    Farmacêutico

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