Hepatite medicamentosa

Hepatite medicamentosa

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No último ano tem-se notado um aumento de usos de medicamentos indiscriminadamente e além disso, há relato de caso de paciente que desenvolveu hepatite medicamentosa em decorrência do uso do assim chamado popularmente kit covid ( Ivermectina, Hidroxicloroquina, Azitromicina). Esse alerta  técnico é de grande importância e deve ser observado pois  há grandes chances de que haja mais casos futuros nas mesmas condições.

HEPATITE MEDICAMENTOSA

O fígado é o principal órgão envolvido no metabolismo e na eliminação de substâncias. A toxicidade hepática pode ser induzida por drogas ou toxinas. 

Pode seguir-se à inalação, ingestão ou administração parentérica de inúmeros agentes farmacológicos e químicos. Estes incluem toxinas industriais e os agentes farmacológicos terapêuticos.

Hepatite medicamentosa ou hepatite induzida por drogas é uma inflamação do fígado causada por dano direto às células do fígado, o hepatócito. A lesão hepática induzida por drogas é responsável por 5% de todas as internações hospitalares e 50% de todas as falhas hepáticas agudas.

A toxicidade hepática é a manifestação mais comum de reação adversa a drogas, motivando a suspensão do licenciamento e da comercialização de inúmeras substâncias.

COMO ISSO PODE OCORRER?

A incidência da toxicidade hepática induzida por drogas varia entre 1 em 1.000 e 1 em 100.000 indivíduos a tomar doses terapêuticas de medicamentos. Entre 1975 e 1999, das 548 novas substâncias aprovadas para comercialização, 10 receberam alertas para potencial toxicidade hepática e 4 foram retiradas do mercado. Crê-se que a toxicidade hepática induzida por drogas esteja subestimada na população geral. 

Ela constitui a principal causa de falência hepática aguda nos Estados Unidos da América, respondendo por mais de 50% dos casos de falência hepática aguda e por 10% dos transplantes hepáticos realizados em alguns centros. 

Nos Estados Unidos, a causa mais frequente é o acetaminofeno. O desenvolvimento de icterícia e a elevação de transaminases em doentes com toxicidade hepática induzida por fármacos está associada a uma mortalidade estimada em 10%. A detecção precoce de falência hepática aguda e a referenciação imediata a um centro de Transplantação é essencial. 

As reações idiossincrásicas ocorrem apenas numa pequena percentagem de indivíduos expostos (0,01 a 1%). A susceptibilidade é ditada por fatores genéticos e ambientais.

Em outras palavras, qualquer substância, medicamento ou droga pode levar o um indivíduo pré-disposto e suscetível a ter uma hepatite medicamentosa aguda.

QUAIS SUBSTÂNCIAS PODEM LEVAR A UMA HEPATITE?

Vários remédios de uso clínico podem causar hepatite em indivíduos suscetíveis. Não se pode prever quem terá hepatite por determinada droga, porém, indivíduos que já têm outras formas de doença do fígado correm maior risco.

Alguns medicamentos relacionados com hepatite são: paracetamol (Tylenol®, Dôrico®); antibióticos e antifúngicos como a eritromicina, tetraciclina, sulfas, cetoconazol e nitrofurantoína; anabolizantes (hormônios usados para melhorar o desempenho físico – dopping); drogas antipsicóticas e calmantes, como por exemplo, a clorpromazina (Amplictil®), amiodarona (antiarrítmico), metildopa (Aldomet® – anti-hipertensivo) e antituberculosos. Anticoncepcionais orais (pílula) também são ocasionalmente mencionados.

Ervas medicinas também podem ser hepatotóxicas, apesar do mito de que “produtos naturais não tem efeitos colaterais”. Qualquer planta com apiol, safrol, alcaloides pirrolizidínicos ou lignanas é hepatotóxica, dentre elas se destacam.

Têucrio (Teucrium chamaedrys labiateae)

Confrei (Symphytum officinale L.)

Cambará (Lantana camara L.)

Sacaca ‘(Croton cajucara)

Kava kava

Óleo de poejo

Ma-huang (Ephedra sinica)

Valeriana

Germander

Além das próprias substâncias das plantas, hepatotoxinas podem ser adicionadas com pesticidas ou contaminantes. Ervas medicinais também podem se tornar hepatotóxicas quando interagem  medicamentosamente com outras drogas.

SINAIS E SINTOMAS

A toxicidade hepática induzida por drogas pode manifestar-se através de reações diretas ou idiossincrásicas. A toxicidade direta é, geralmente, dose dependente, reprodutível e tem, habitualmente, evolução previsível. As reações idiossincrásicas manifestam-se após um atraso ou período de latência que varia entre 5 a 90 dias depois da ingestão da droga. 

O período de tempo entre o consumo de determinada droga e a toxicidade hepática que induz é, geralmente, consistente de pessoa para pessoa. O mesmo sucede com a dose necessária para produzir lesão hepática. A toxicidade hepática pode permanecer irreconhecível até que se estabeleça icterícia.

As drogas hepatotóxicas podem lesar os hepatócitos diretamente, através de radicais livres ou metabolitos que causam peroxidação dos lipídeos da membrana. A toxicidade hepática direta ocorre de forma previsível em indivíduos expostos e é dependente da dose. O período latente entre a exposição e a lesão hepática é curto (habitualmente, horas), embora as manifestações clínicas possam instalar-se até 24 a 48 horas. 

A maioria das reações tóxicas induzidas por drogas é idiossincrásica e imprevisível, não diretamente hepatotóxica.

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico de toxicidade hepática induzida por drogas constitui um desafio diagnóstico. Pressupõe um elevado índice de suspeita e a exclusão de outros diagnósticos diferenciais. A abordagem inclui estudo sorológico, com determinação de marcadores virais e autoimunes, ecografia abdominal e a identificação de potenciais fatores de confusão, tais como hipotensão, sepses, insuficiência cardíaca e nutrição parentérica. 

Doenças concomitantes (infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, alcoolismo, diabetes e obesidade) devem ser valorizadas, pois podem comprometer negativamente a evolução. 

A toxicidade induzida por determinada droga reveste-se de padrões característicos que se refletem em nível das alterações analíticas, da latência dos sintomas, da presença ou não de hipersensibilidade imune e da evolução após suspensão da substância. 

Existem, apesar de tudo, variações individuais para cada droga ou substância.

TRATAMENTO

A suspensão do agente suspeito de toxicidade é a primeira medida a adoptar logo que se detecte qualquer sinal sugestivo de reação adversa. 

O tratamento é, essencialmente, de suporte. No caso de toxinas diretas, o envolvimento hepático não deve desviar a atenção de potenciais danos noutros órgãos, nomeadamente no rim. 

Quando se estabelece hepatite fulminante, o transplante hepático pode ser a única alternativa.

REFERÊNCIAS:

– Espondilite Aquilosante [Hepatite e Hepatite Medicamentosa]. Disponível em: http://www.espondilitebrasil.com.br/hepatite-e-hepatite-medicamentosa/

– Alert [Hepatites tóxicas e Medicamentosas]. Disponível em: http://www.alert-online.com/br/medical-guide/hepatites-toxicas-e-medicamentosas

– Paciente do HC da Unicamp com hepatite medicamentosa relacionada ao ‘kit Covid’ entra na lista para transplante de fígado. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2021/03/24/paciente-do-hc-da-unicamp-com-hepatite-medicamentosa-relacionada-ao-kit-covid-entra-em-lista-para-transplante-de-figado.ghtml

– Hepatite medicamentosa: entenda intoxicação pelo ‘kit Covid’ que levou paciente de Campinas à fila do transplante. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2021/03/25/hepatite-medicamentosa-entenda-intoxicacao-pelo-kit-covid-que-levou-paciente-de-campinas-a-fila-do-transplante.ghtml

FONTE

1.VEIGA JUNIOR, Valdir F.; PINTO, Angelo C. and MACIEL, Maria Aparecida M.. Plantas medicinais: cura segura?. Quím. Nova [online]. 2005, vol.28, n.3 [cited 2016-11-24], pp.519-528. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-40422005000300026&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0100-4042. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-40422005000300026

2.Einar S. Björnsson, Rolf Teschke e Raúl J. Andrade. Hepatotoxicity by Drugs: The Most Common Implicated Agents. Int J Mol Sci. 2016 Feb; 17(2): 224. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4783956/

-https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2021/03/25/hepatite-medicamentosa-entenda-intoxicacao-pelo-kit-covid-que-levou-paciente-de-campinas-a-fila-do-transplante.ghtml

Imagem: Vinícius Lôbo

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